Em 2025, nós plantamos comida!
- Vanessa Schweitzer dos Santos

- há 1 dia
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Atualizado: há 4 horas
Em 2025, nós plantamos comida na escola! Cultivamos muitos alimentos na EMEB Jorge Ewaldo Koch, e o Viveiro Tabebuia rendeu experiências que ainda estamos digerindo — no melhor sentido. Obviamente, não plantamos para suprir a alimentação escolar; há verbas específicas para isso, e nossa merenda e almoço seguem deliciosos como sempre.

Figura 1: Uma estufa pra chamar de nossa - o Viveiro Tabebuia. Fonte: a autora (2025).
Mas essa história começou antes. Quando cheguei à escola, em 2023, já existia uma horta bem estruturada, com canteiros de alvenaria e um tamanho ótimo. Como não havia um projeto de educação ambiental com profissional responsável, o espaço era usado apenas de vez em quando. Em 2023, começamos a revitalizar a área e devolver vida à horta. Naquele ano, com um projeto de contraturno de duas horas semanais, renovamos a terra, reativamos a composteira de chão e as composteiras de caixas e obtivemos boas colheitas. Também plantamos cinco árvores frutíferas na pracinha (esse relato está disponível aqui no Blog, no texto 21 de Setembro - Dia da Árvore).
No ano passado (2024), a escola não teve projetos de contraturno por conta do número de turmas. Assim, minha carga horária ficou totalmente voltada ao atendimento das turmas inteiras. Como a horta já estava organizada, foi fácil se adaptar à nova rotina. Na verdade, descobri algo precioso: atendendo as turmas no horário regular, aquelas crianças que não demonstravam tanto interesse por Ciências tiveram mais tempo para interagir com a natureza. Muitas moram em apartamentos ou vivem em espaços com poucas oportunidades de contato com o verde; para elas, a escola é o único lugar onde podem mexer na terra, tocar as plantas e até cultivá-las.

Figura 2: Do broto germinado ao milho de pé. Agora só faltam as espigas se desenvolverem! Fonte: a autora (2025).
Por isso, ter um pátio vivo, com possibilidades reais de interação com a natureza, é fundamental para o desenvolvimento integral das crianças. E mais: não é possível “cuidar” daquilo que não se conhece. O cultivo de plantas e alimentos na escola abre portas para descobertas que nenhum livro sozinho daria conta.
Um exemplo marcante foram os cachos de banana. Aprendemos, juntos, que cultivar alimento demora. O cacho que surgiu em maio só ficou maduro em dezembro. Sete meses de espera! Perceber esse tempo da natureza nos faz compreender, de forma muito concreta, que desperdício de alimento não pode acontecer.
Essa é uma das riquezas da educação ambiental: quando as propostas se conectam, formam ciclos que ajudam a compreender a sustentabilidade na prática. Desperdiçar alimento não significa apenas gerar resíduos; significa desperdiçar tempo, nutrientes, natureza e trabalho.

Figura 3: Depois do cacho descoberto, é preciso esperar o tempo da natureza para consumir o alimento. Fonte: a autora (2025).
E falando em tempo: plantar comida é aprender que a natureza tem seus próprios ritmos. Processos de desenvolvimento/amadurecimento que não podem ser antecipados, pelo menos não em um plantio doméstico e não comercial. Cultivar alimentos é aprender a esperar o tempo da natureza! Quem mora no extremo sul do Brasil sabe bem disso — invernos frios e chuvosos, verões quentes e secos, variações climáticas que mexem com o desenvolvimento de qualquer ser vivo, principalmente vegetal.
A irrigação automática do viveiro foi essencial. A rega manual com as crianças nem sempre acontecia com a frequência necessária, e não era realizada nos fins de semana, feriados ou recessos. Ter a irrigação automatizada foi um dos motivos que nos levou a sonhar com uma estufa didática.
Quando o diretor apresentou a possibilidade de inscrever um projeto no Fundo Social da Sicredi Pioneira, sugeri a aquisição de uma estufa para proteger os canteiros dos extremos do clima e permitir irrigação permanente. Cobrindo os canteiros que já tínhamos, ela protegeria o espaço do frio e calor extremos (pois é revestida de tela para sombrear, quando necessário), e poderia realizar a irrigação permanente e automatizada.
Inicialmente, chamamos ela de "estufa", como havíamos planejado no projeto submetido ao Fundo. Mas depois de sermos contemplados, mudamos sua identificação para "viveiro". Esse termo se mostrou mais adequado ao contexto das crianças e da própria escola - todos concordamos que escola é lugar de VIDA! Mas quem me deu essa ideia foi a minha mãe, numa conversa informal, onde ela me perguntou como estavam as obras do "viveiro". Amei o termo!
Como coisas importantes sempre têm nome, identificamos nossa estufa de Viveiro Tabebuia. O termo Tabebuia é uma palavra de origem indígena, que remete às "tábuas (madeiras) duras" das árvores de ipê. O ipê roxo é a árvore símbolo da EMEB Jorge Ewaldo Koch, está presente no seu logotipo e materializado no pátio central da escola, desde sua inauguração, há 75 anos! Aprendizagem sólidas, duradouras e cheias de vida é o que nós buscamos para nossos estudantes, e muitas dessas experiências podem ser vividas na horta, e agora no viveiro, cultivando alimentos na escola!

Figura 4: O Viveiro Tabebuia - onde plantamos “comida”! Fonte: a autora (2025).
Para que este espaço fizesse mais sentido para as crianças, e com o objetivo de que elas se vinculassem afetivamente à ele, durante o período de montagem da estufa, estudamos seu funcionamento e finalidades. A expectativa por vê-lo montado era grande!

Figura 5: Apesar de não fazer parte do cotidiano das crianças, o viveiro foi muito esperado. Cada um imaginava ele do seu jeito. Fonte: a autora (2025).
Nossas colheitas foram incríveis! As hortaliças e os alimentos folhosos foram os que melhor se adaptaram ao viveiro. Poder escolher o tempo e a intensidade da irrigação favoreceu muito o crescimento dessas plantas. O sombreamento ajustável também qualificou seu cultivo - tem muito conhecimento envolvido com plantar alimentos! Dentro das possibilidades de cada turma e ano/série atendido, fui abordando essas informações mais técnicas, sempre numa linguagem que as crianças pudessem compreender.


Figuras 6 e 7: Algumas colheitas utilizadas no almoço escolar. Fonte: a autora (2025).
Mas nem tudo foi fácil, ou deu certo! Cultivar alguns alimentos exige mais cuidado, adubação, irrigação, ou outros cuidados. As crianças pediram muito para plantar morangos, e observamos que nossa produção ficou bem menor do que os morangos comerciais. Vale lembrar que 2025 foi o ano do “morango do amor”! Optamos por não usar agrotóxicos ou defensivos industriais, e não fizemos adubação com nutrientes específicos - só terra preta e adubação natural. Escolhas que permitiram observar que há um apelo comercial e estético muito grandes para a produção de alimentos - todo mundo quer uma fruta bonita, grande e com cores vibrantes! Mas essa talvez seja a mais artificial. Como já mencionado, cada experiência do “plantar comida” rende muitas e muitas descobertas, que podem ser aprofundadas de diferentes maneiras, com cada faixa etária e turma atendida.

Figura 8: Colheita de morangos. Fonte: a autora (2025).
Pequenas no tamanho, grandes no sabor! As batatas que colhemos foram mais um exemplo de que nem sempre vamos cultivar alimentos tão bonitos e padronizados quanto os comerciais. Elas foram muito especiais, porque permitiram que as crianças observassem que muitas partes das plantas são comestíveis, nossos alimentos vêm das folhas, flores, frutos, sementes e raízes. Inclusive, as batatas nasceram a partir das cascas que colocamos na composteira, para produzir adubo, fechando (ou recomeçando) lindamente o ciclo.

Figura 9: Batatas colhidas na escola. Fonte: a autora (2025).
O objetivo não é demonizar a produção industrial de alimentos ou defender que todos passem a plantar tudo em casa. A ideia é trazer essas percepções para o cotidiano escolar e comunitário. Conhecimento liberta — e plantar comida ajuda a fazer escolhas mais conscientes, melhores escolhas.
Inclusive, porque muitas crianças não reconhecem os alimentos como elementos de origem natural, ou seja, não têm clareza de que eles foram um ser vivo cultivado, que tem um ciclo de vida e depende de condições ambientais favoráveis, do tempo e do seu próprio desenvolvimento para crescer e se tornar um alimento consumível. Por vezes, parece que o imaginário infantil já normalizou que a “comida” vem do supermercado (foi produzida numa fábrica e embalada). Observamos isso diante do encantamento que foi acompanhar o cultivo de feijão!

Figura 10: Observando o desenvolvimento dos feijões. Fonte: a autora (2025).
Esse feijão, chamado de “carinha de palhaço" devido às manchinhas coloridas, logo despertou o interesse das crianças pela cor e aparência. Plantamos aproximadamente 30 grãos, mas nem todos germinaram. Como a germinação dele é bem rápida, logo os brotos foram “descobertos”. Foi possível observar de perto e diariamente seu crescimento, assim como o desenvolvimento das flores e vagens. Nessa experiência o TEMPO também se mostrou importante, porque apesar de perceber-se que os grãos já estavam formados, era preciso esperar as vagens “secarem” para colher.

Figura 11: Colheita de feijões. Fonte: a autora (2025).


